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Publicado em 30/03/2020

 

O CORONAVÍRUS 

E A FRAGILIDADE HUMANA

A  quarentena que nos obriga a ficar em casa também nos lembra da nossa  própria  fragilidade.

Uma vez ouvi estarrecido de  uma ex-aluna, cujo emprego dela e do marido, que os obrigava a uma rotina de muitas viagens, influenciava no convívio doméstico: "Sou casada, mas não vejo meu marido durante a semana, por sorte, aos fins de semana. A minha correria e a dele não permitem que nos encontremos na nossa casa."
Sim, antes da quarentena e da indesejável visita do COVID-19 ao Brasil era muito comum o discurso do "não ter tempo".

Afinal a frase "não ter tempo", era o slogan politicamente correto da eficácia corporativa, da vida feliz e variada das redes sociais, que também registravam nossos diversos compromissos, as viagens felizes, almoços, jantares, confraternização com os inúmeros amigos, até que a #ficaemcasa se impôs e nos fez lembrar que, sim, temos casa, família, livros, animais domésticos, idosos e uma rotina, que poderia ser deliciosa, não fosse o medo da infecção, os assustadores discursos do Presidente da República e o  mais assustador ainda é o não ter opção de consumo, diante da  quase proibição de vida externa, o fechamento dos comércios tirou também  um dos principais prazeres do homem moderno: o consumo.

Surgiram a insegurança com a economia pessoal, nacional e global. A  também insegurança profissional atingiu a todos trabalhadores formais e informais. 
Mas assustador mesmo pode ter sido o encontro com a própria fragilidade
Sim, essa maravilhosa existência é frágil e até que as religiões provem o contrário, dura apenas uma única vez. 
Nossa situação atual pouco nos lembra os "super-homens" e "super-mulheres” do mundo corporativo tempo=0  ou  a plenitude dos mesmos super-heróis em redes sociais. 
A quarentena veio nos falar da fragilidade da existência e do tempo perdido. 
O tempo que se esvai na escravidão do celular. 
O tempo que se esvai na eterna desculpa da falta de tempo.
O tempo em que não estávamos em casa. 
O tempo que não volta.
Será muito triste saber que a pandemia passou e voltamos a ser os mesmos seres escravos dos mesmos discursos e atitudes. 
Falar dos tempos atuais é lembrar também aquele que talvez seja o narrador mais lúcido dos nossos tempos: Leandro Karnal . 
Em um de seus discursos, o filósofo e historiador bem definiu a rotina humana Pré – Covid-19, quando achávamos que nada, ou ninguém, poderia contra os nossos poderosos dias: 

"Quando eu não tenho sabor nas coisas que faço
Eu multiplico as coisas que vivo e faço 
E falo mais 
E saio mais 
E faço mais festas 
E viajo mais
E não paro de viajar
Como eu não consigo estar comigo
Eu quero estar em todos os lugares do mundo 
Por que eu não tolero estar em minha casa pensativo
Então eu tenho de estar no stress do aeroporto
Enfim uma vida para rodar, rodar, rodar até que eu fique tão tonto e perca a consciência de mim mesmo.
Por isso, viajamos mais do que jamais viajamos no passado.
E batemos fotos que não vão ser vistas por ninguém. 
Ou vão ser enviadas para 10.000 amigos que não vão ver ou vão ter inveja por eu estar viajando 
Ou vão responder apenas 
KKKKKKK"

Talvez o texto de Karnal hoje não reflita tanto a realidade dos nossos dias de pandemia, visto que  o turismo deve ser um dos segmentos que lideram o ranking de comércios com os mais altos índices de prejuízos na quarentena ou seja, não há viagens para serem curtidas e fotografadas. 

O momento é outro:  o de lutar contra o Coronavírus. E de aceitar a mim mesmo do jeito que sou:  frágil,  dependente e inserido em uma sociedade que grita por socorro. 




Silvio Tadeu
Produtor Cultural e Jornalista 





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