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NAMÍBIA, SIM - RACISMO, NÃO!


Em cartaz no Teatro de Arena, o espetáculo "Namíbia, Não!", traz, de forma inquietante, uma discussão que no Brasil ainda existe e persiste: o racismo.


Com direção do global Lázaro Ramos, o espetáculo fica em cartaz até 17 de fevereiro, quinta a domingo ás 20:00 horas.

Assisti ao espetáculo, que é arrebatador e tive o privilégio de entrevistar os dois protagonistas, Aldri Anunciação e Flávio Bauraqui, que nos concedeu uma impactante entrevista sobre discriminação, arte e vida.

Lembrando que o espetáculo faz parte de um projeto maior chamado "Melanina Acentuada", onde uma agenda de palestras, leituras e espetáculos, prometem não deixar ninguém sem conhecer um pouco do teatro que se faz pelos autores negros de todo o Brasil .


Uma vez eu li em um artigo, sobre os muitos judeus mortos na segunda guerra mundial, e pouco se fala sobre o mesmo genocídio aplicado aos negros no período da escravidão.

Hoje nós temos um espetáculo que faz parte de um projeto maior, temos Obama Bin Laden, na Presidência dos Estados Unidos, Joaquim Barbosa, na Presidência do Supremo aqui no Brasil .

Gilberto Gil no Estadão, apontou a tendência de negros nos cargos de importância.

È realmente uma tendência?

Flávio - Acho que é um processo natural depois de tanta luta, natural que chegássemos a esse lugar e acho que iremos evoluir ainda mais. O que acontece hoje é um reflexo do que aconteceu ontem. Acho que tendência dá uma ideia de uma coisa “manipulada”, acho que é uma consequência de uma luta, muita luta.

Aldri - Concordo com o Flavinho, é uma consequência, o Brasil precisa ser mais consequente, o que é isso ? Tudo que acontece hoje é fruto do passado , então certas medidas até incomodam certos setores da sociedade. Mas antes de passar pela “seara” do incomodo, as pessoas tem de avaliar as coisas de forma consequente . Tudo parte do ponto de vista da consequência. O mundo é consequente. Tudo que aconteceu lá atrás, está refletindo hoje em dia.

Você usou um termo interessante , “ seara do incomodo” , gostaria de fazer a vocês uma pergunta óbvia, mas vocês talvez podem me responder com mais propriedade: O racismo ainda existe?

Flávio – Não tenho a menor dúvida . Tá na cara das pessoas, no comportamento, tá no Brasil, tá no mundo, existe com certeza.

Aldri – A situação hoje está melhor que tempos atrás, mas respondendo a sua pergunta, eu diria que sim. É como um câncer. O câncer você tem de extirpar, não adianta achar que só por que deu uma melhorada, já está sob controle. Acho que ainda existe racismo sim.

Recentemente o cantor Alexandre Pires, foi acusado de racismo, por ter incluído em um vídeo clip, gorilas atacando mulheres em uma piscina. Vocês não acham que pode estar existindo um excesso de zelo, em situações onde pode haver apenas ironia. Por exemplo já se tornou indelicado usarmos a palavra “negro”, temos de usar o termo “afrodescendente “, o que vocês acham disso?

Flávio – Acho que artisticamente cada um pode fazer o que bem entende. Eu pessoalmente não colocaria gorilas em um vídeo clip.
Por que não colocaria?

Flávio – Por que é uma comparação que não acho interessante.

Eu mesmo na minha infância, fui muito chamado de macaco. Mas não tenho o direito de julgar a arte de ninguém, estamos em um país democrático. Eu acho que não existe “excesso de zelo”.

Existe equívoco. As pessoas estão um tanto equivocadas, com mania de perseguição. Acho que temos de ter um olhar mais tranquilo e distanciado para entendermos o que está acontecendo.

Eu mesmo não quero mais ser vitima, quero ser igual. Quero ter os mesmos direitos. No Brasil hoje existe uma grande “frescura”.

Tudo virou crime. Será que tudo é crime, ou nós é que estávamos desprotegidos de muitas coisas. Hoje em dia por exemplo, o direito do consumidor funciona mais ou menos. Uma coisa é a lei, outra coisa é o dia a dia, se ela realmente funciona, se está sendo eficiente. Eu não estou preso a nomenclaturas, posso dizer ele é “negro”ou ela é “negra”. Acho bacana também “afrodescendente”, mas com certeza depois outro nome virá.

Aldri - Com respeito ao vídeo clip do Alexandre Pires, eu também não posso julgá-lo. Mas posso dizer que provavelmente o Alexandre não seja um cara racista. Aí eu retorno a questão da consequência. Posso dizer que a direção do vídeo clip, não foi consequente. Não pensaram o que um pequeno detalhe poderia causar a um país com sua grande maioria formado por negros.

Não acho também que exista um excesso de zelo. Acho que existe um cuidado. A sociedade é um organismo vivo, complexo e dinâmico. Qualquer notícia ou acontecimento, pode causar um efeito devastador na sociedade. Pequenas informações detonam uma guerra.

O projeto “Melanina Acentuada” de quem é a concepção?

Aldri - O projeto nasceu na verdade a partir do espetáculo “Namíbia, Não! ”. Mas eu não queria polarizar o projeto para apenas uma parte da sociedade, queria falar a negros e a brancos.

O projeto visa dar “luz” a um grupo de autores de teatro. Onde surgiu a ideia desse projeto? Surgiu como uma resposta dada á pergunta de um repórter, durante um entrevista, ele perguntou: Como você se sente sendo o único autor negro atuante no Brasil?

Isso teve em mim um efeito devastado (risos). O projeto traz aí autores negros que estão atuantes com seus textos de todo o Brasil, que escrevem de forma muito bonita e não são monotemáticos. Não falam só sobre racismo. Falam sobre o homem, a mulher, as paixões, as tragédias e as comédias da vida .

Aldri, quem nasceu primeiro, o autor ou o dramaturgo?

Foi o ator. Eu me descobri como autor a quatro anos atrás.

Quando decidi escrever o “Namíbia”, eu pensei em procurar um autor para escrever. Como eu queria misturar a questão do racismo com comédia, e essa abordagem me foi negada por alguns autores, decidi eu mesmo escrever o texto. Foi aí que nasceu o autor. “Namíbia” é o meu primeiro texto.

Flávio Bauraque, você começou sua carreira artística antes de fazer escola?

Na verdade eu não sou acadêmico, sou autodidata, ou melhor, comecei como, depois fiz algumas oficinas, mas efetivamente acho que eu me proporcionei a minha própria profissão.

Eu morava em uma cidade do interior e não tinha muito contato com o teatro. Mas muito jovem comecei a escrever alguns textos, participei de uma companhia de teatro chamada “ Improviso” que durou seis anos. Todo meu histórico é em cima da improvisação e eu sou muito observador também. A vida também é uma ótima escola, eu leio bastante, a TV me ensinou muito, o cinema me ajudou a ficar mais ágil, acho que tudo isso formou o ator Flávio Bauraqui.

Tenho vontade de produzir meus próprios filmes. Chega um momento que o mercado não consegue absorver todo mundo, então prefiro ser mais autônomo. O Aldri é uma grande inspiração para mim no sentido de criar seus próprios projetos.

Vocês estão ocupando aqui em São Paulo o Teatro de Arena, que foi e é símbolo da resistência contra a ditadura. O projeto de vocês também pode ser chamado de “arte de resistência “.

Vocês acham isso muito significativo?

Flávio – Demais! Você acaba se sentindo parte disso também em uma outra época mas está interligado. A única tristeza que eu tenho, e não falo só desse teatro, mas de todos os teatros do Brasil, é a falta de memória e cuidado, a questão burocrática que acaba refletindo no teatro, e isso me deixa um pouco triste, e penso: Será que teremos apenas Teatro de Shopping ? Dizem que o Brasil é um país sem memória. Mas se os próprios órgãos que deveriam cuidar disso não o fazem, como podem falar mau do povo?

Qual a resposta do público ao projeto?

Flávio – Tem sido incrível. As pessoas saem tocadas. No Paraná, uma região com muitos descendentes italianos e alemães, foi surpreendente ! Essa peça tem chegado muito bem nos jovens.

Em algumas apresentações no final fazemos discussões com a plateia, e notamos que elas estão extasiadas, por ser um espetáculo que busca a reflexão e é provocador.

Aldri – Acho que o “Namíbia” tem sido recebido super bem, pois mistura drama e comicidade. É um assunto que traz um certo peso e uma certa diversão. O público vem se diverte e compra a reflexão da história. É um assunto que diz respeito á todas as pessoas.

Flávio - Importante salientar a perfomance dos atores, que foi conseguida por uma pessoa muito importante, Lázaro Ramos, na sua primeira direção de adulto, e os caminhos que ele optou.
Ele buscou escolhas que não denigrem nossa imagem, escolheu um caminho digno.




PROJETO 

MELANINA ACENTUADA



ESPETÁCULOS

“Namíbia, Não!“
Até 17/02 / 2.013
De quinta a domingo – 20:00 hs
Direção : Lázaro Ramos
Texto : Aldri Anunciação
Com : Flávio Bauraqui e Aldri Anuncião

“As Paparuta “
Dias 23 e 24/02/2.013 ás 17:00 hs
Espetáculo Infanto – Juvenil

“O Subterrâneo Jogo do Espírito“
De : 28/02/2.013 a 03/03/2.013 ás 20:00 hs

“Movimento n. 1 – O silêncio de depois“
Temporada de 07 a 10/03/2.013 ás 20:00 hs

“Além do Ponto“
Temporada de 14/ a 17/03/2.013 - 20:00 hs

“Seu Bonfim“
Temporada de 21 a 22/03/2.013 - 20:00 hs

“Casa Número Nada“
Dia 23/03/2.013 - 20:00 hs

“Sebastião“
Dia 24/03/2.013 ás 20:00 hs

“Sirê Obá – A Festa do Rei“
Temporada de 28 a 31/03/2.013 ás 20:00 hs

“Urubu come carniça e voa“
De 04 a 07/04/2.013 ás 20:00 hs



PALESTRAS E DEBATES


“A Criação Coletiva / Colaborativa na dramaturgia afro-brasileira.“
Dia 30/01/2.013 - ás 19:00 hs

“A Dramaturgia sob o olhar do autor negro e o personagem negro na dramaturgia infantil.“
Dia 20/02/2.013 - ás 19:00 hs

“Impasses Poéticos na cena brasileira: Negra Cena de Alma Branca“
Dia 27/02/2.013 - ás 19:00 hs


Local onde as atividades do projeto estão sendo realizadas

TEATRO DE ARENA EUGENIO KUSNET
Endereço: Rua Doutor Teodoro Baíma, 94 - Vila Buarque, São Paulo, CEP - 01220-040
Telefone: (11) 3256-9463
Estação: Republica




Silvio Tadeu
Colunista de Arte e Cultura
18/01/2013

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