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Publicado em 17/03/2020

 

FELLINI

E A DIFÍCIL ARTE DE SER ESPECTADOR


A retrospectiva Fellini,il Maestro celebra o centenário de nascimento do cineasta italiano, comemorado em 20 de janeiro e está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo, e poderá ser retomada quando as prevenções contra o Coronavírus liberarem os atraentes programas culturais da cidade .

Sim, fui assistir ao filme "8 ½", na última sexta-feira dia 13/03, e logo no início da sessão fomos avisados da suspensão da programação devido a pandemia .

Ou seja, conheci melhor Fellini às vésperas de um caos em uma sexta-feira dia 13.

Claro que eu tinha certeza que iria assistir a mais um filme de um grande diretor, cujo repertório eu já assisti “Os Palhaços”, um documentário sobre alguns dos mais conhecidos palhaços, famosos mas esquecidos pelo tempo .

E como grande diretor, Fellini não fugiu a regra.

Ensinou a mim que ser espectador realmente é uma arte .

Espectador é o consumidor final de um sonho, de um resultado que mobilizou algumas centenas de profissionais e alguns reais ou milhões de dólares.

E cabe a ele somente a ele, definir o que foi essa experiência, em algumas horas de audiência, o que talvez se levou anos se planejando e alguns outros anos realizando.

No caso estou falando de Federico Fellini e minha experiência ao assistir a um de seus filmes mais famosos.

Federico Fellini (1920-1993) foi um cineasta italiano, considerado um mestre na arte de fazer filmes. Federico Fellini nasceu em Rimini, Itália, no dia 20 de janeiro de 1920. Filho de Urbano Fellini, um vendedor viajante e de Ida Barbiani. Era o mais velho de três irmãos. Com dons para escrever e desenhar, decidiu seguir a carreira de caricaturista. Com 18 anos foi para Florença onde trabalhou como caricaturista e publicou seu primeiro desenho no “Semanário 420”. Depois de escrever pequenos roteiros e piadas para comediantes de rádio, entrou para o cinema como assistente dos diretores Roberto Rossellini, Pietro Germi e Alberto Lattuada, quando adquiriu conhecimento da técnica da produção audiovisual. Com “Abismo de Um Sonho” (1952), Fellini fez sua primeira direção. No filme ele aborda um tema recorrente em sua filmografia: a oposição da realidade e sonho.


Para mim, a experiência de Fellini foi importante para refletir sobre uma das frases que mais reflito sobre o fazer artístico:

"A Arte tem muitas linguagens mais uma só verdade : a que emociona."

ou seja, assisti a grande obra felliniana sem emoção alguma.

Sim eu não gostei deste filme...

Por favor, me perdoem... um grande roteiro, um grande diretor, um grande ator, Marcello Mastroianni, o resultado não tem por obrigação ser bom, nem ótimo, nem excelente.

Tenho um conceito muito particular sobre um resultado artístico, fora me emocionar; será que meu pai, minha sobrinha, meu amigo mais distante entenderiam a história, a reprodução, o quadro, o filme, a música, enfim...

Sobre o filme "8 ½"

Ano de lançamento 1962 - Reino Unido

Prestes a rodar sua próxima obra, o cineasta Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) ainda não tem ideia de como será o filme. Mergulhado em uma crise existencial e pressionado pelo produtor, pela mulher, pela amante e pelos amigos, ele se interna em uma estação de águas e passa a misturar o passado com o presente, ficção com realidade.

Evidente que os críticos à época aplaudiram de pé este espetáculo.

Cheio de metalinguagem, cenas inimagináveis, como a primeira cena onde o protagonista se vê flutuando nas nuvens preso a uma corda ao solo, o filme impressiona, mas esses mesmos efeitos sufocam a sequência de cenas que contam a história de um diretor em um momento de crise de ideias e as quase duas horas de filme ficam intermináveis, tal é o pipocar de cenas soltas e descontínuas. O filme tem grandes influências da psicanálise jungiana, da qual Fellini era um entusiasta. Um exemplo é o grande foco nos sonhos do protagonista para explicar sua persona e acontecimentos de sua infância. O uso da fotografia preta e branca também serve para reforçar o conceito jungiano de sombra.

Parece claro que o caos criativo, comuns em qualquer processo de nascimento de um trabalho, que poderiam gerar um filme brilhante, foi levado a tela, mas não um produto final.

Com certeza irão dizer: Como você se atreve a criticar um filme de Frederico Fellini?

Respondo: Não critico. Esse diretor é tão brilhante, que me fez refletir sobre o difícil ofício de ser espectador. Um consumidor de arte.

Vamos primeiro analisar as condições que o filme foi produzido.

Como diretor consagrado, Fellini tinha aos seus pés na época desta produção, todo um cortejo de produtores, profissionais de estúdio, jornalistas, grandes atores, grandes atrizes, que estavam ávidos pela sua próxima produção .

E com certeza, Fellini se sentia como Guido Anselmi, seu personagem e protagonista: pressionado.

A pressão do mercado sobre um artista sempre teve consequências devastadoras.

A inspiração não é um animal doméstico.

É selvagem e caprichosa.

Não pode ser domesticada.

Então seria impossível para um diretor do "naipe" de Fellini, alguém dizer:

"Agora você fará um novo filme."

Com certeza, pelo elenco, pelas cenas de ousadas soluções e pela produção, os críticos à época devem ter aplaudido de pé. Venceu o Oscar nas categorias de melhor filme estrangeiro e figurino.

Mas em 2020, saindo da sessão alguns comentavam:

Esse filme é uma grande confusão.

Entendi pouco.

Enfim...a arte tem de emocionar, de preferência o público, seu verdadeiro consumidor.



Silvio Tadeu
Colunista de Arte e Cultura





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