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Publicado em 26/11/2014

ENTREVISTA COM 

CACO CIOCLER

Ele iria se tornar engenheiro, mas surpreendeu a família em mostrar logo na infância seu gosto pelo palco. Estreou na adolescência a peça “Equus”. Tempos mais trade foi descoberto por Luiz Fernando Carvalho, então, diretor da novela “ O Rei do Gado” que o convidou para um teste. Do teatro á Rede Globo, Caco Ciocler, prossegue em uma carreira de muita coerência, plenamente consciente da sua importância no atual cenário do Teatro, Cinema e TV . 

O Portal Vila Mariana, se orgulha de entrevistar esse artista brasileiro de grande expressão, que em dez perguntas, muito nos fala sobre a nova geração de atores e atrizes, seu novo espetáculo “ Terra de Ninguém “ , seu novo filme, onde estréia como diretor e sua perspectiva sobre o teatro e a arte de uma forma geral .

Ainda pode ser visto ás 18 horas , na novela "Boogie-Woogie" na pele do jornalista Paulo Fonseca .

Enfim ... Um artista que tem muito a nos dizer.


1 )  Você se  tornou um ator global, mas não abandonou a arte enquanto experimento e criação, trazendo um texto inédito de Harold Pinter aos palcos de São Paulo e lançando um novo filme. Como você está enxergando a nova geração de atores e atrizes, cada vez mais ávidos por um trabalho em alguma emissora de televisão ?

Acho que essa geração a que você se refere tem uma noção diferente sobre a construção de uma carreira! Isso tem um lado bom e um lado ruim. É uma geração de atores que se prepara para o "mercado", sabe? Já estreiam na TV com empresários, assessores, gente que pensa nas roupas que vão usar nos eventos, assessorias de imprensa que impulsionam a carreira, assessores de redes sociais... É um tipo de sabedoria e lógica que minha geração não tem. A gente ia fazendo as coisas por paixão, os convites iam aparecendo e a gente ia meio atras do que interessava e do que pudesse nos sustentar. Ninguém pensava muito nas lógicas da construção sólida de uma carreira a longo prazo! Hoje em dia vejo muito ator que começa na televisão e depois quer fazer teatro porque entende que isso vai ser bom para  a carreira e não por paixão, entende? Ao mesmo tempo eles tem uma sabedoria nesse sentido que a gente não tinha e não tem! Eles assumem suas fragilidades, buscam aprimoramento, entendem o jogo da competição de mercado. Contratam assessorias, professores, metem as caras... Sabem a importância das mídias sociais na projeção  de seus nomes. A gente não faz nada disso. A gente só quer trabalhar e fazer nosso teatro por amor e necessidade artistica! Não somos nem melhores e nem piores. Somos diferentes. A humanidade é diferente. Os interesses são diferentes. E eles estão conectados com isso! A gente ainda vive meio no passado e luta por uma pureza que encontra eco e faz sentido em cada vez menos gente! Mas não somos melhores por isso! E nem piores! É uma questão geracional mesmo!


2 ) Uma vez você comentou: Não faço mais teatro para público e sim para indivíduos. Pode explicar essa frase?

Essa frase aprendi com o Roberto Alvim. Cada indivíduo tem (e se permite ter) uma experiência particular própria diante de uma obra de arte. Eu posso mostrar um Van Gogh para um grupo de 100 pessoas. Tem gente que vai gostar, tem gente que não vai gostar, tem gente que vai chorar, tem gente que vai ficar indiferente, tem gente que vai se transformar...,não é assim? Então, diante de uma mesma obra, a decisão intelectual e emocional do tamanho da troca experimental diante dessa obra é do indivíduo espectador. Então não faz mais sentido falar em público como uma massa uníssona mas sim em indivíduos. 


3 ) Quando você  foi convidado para fazer TV, você resistiu ao convite? Por que ?

Não. Uma semana antes desse convite descobri que ia ser pai. Morava ainda na casa dos meus pais, estudava engenharia e ganhava um dinheirinho dando aulas de teatro.  Precisava sair de casa, sair da faculdade e cuidar da minha nova familia. Portanto esse convite foi um presente que salvou minha vida naquele momento. Eu aceitei na hora! Na verdade aceitei o convite para um teste! Aceitar o trabalho foi apenas consequência disso. 


4 ) Sobre cinema, fale sobre seu novo filme.

É minha primeira experiencia como diretor em um longa metragem. Um documentario com estreia prevista para o final desse ano ou o inicio do ano que vem. Chama-se “Esse viver ninguém me tira“  e fala sobre dona Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, segunda esposa do João Guimarães Rosa ,que na Alemanha nazista ajudou a salvar vidas quando trabalhava no consulado brasileiro em Hamburgo. O filme é lindo! 


  
5 ) Você tem uma personalidade artística muito forte nos vários segmentos que atua. O que o artista Caco Ciocler quer dizer ás pessoas?

Que parem com essa histeria pelo preenchimento. A vida (e a arte) está ficando sem tempo, sem espaços vazios, sem silêncios! Esqueçam essa ditadura do ritmo, da tentativa de cobrir toda e qualquer lacuna! Os ritmos são feitos pela combinação de preenchimentos e de vazios! Tá tudo tão preenchido que tá ficando muito chato! Mais pausas! Mais silêncios! Mais sutilezas! Mais nuances! Mais vultos! Menos luz! Menos explicitação! Mais mistério!


6 ) Quais os novos projetos que o produtor quer desenvolver?

Tô num dos  periodos mais férteis da minha vida! Tenho um projeto de ficção que vou dirigir no cinema, uma série que estou ajudando a escrever, um livro... E vontade de viajar fazendo documentários e estudando!

  
7 ) Você disse que o teatro não é entretenimento e que tem leis próprias. Quais são essas leis?

Não sei a resposta. Mas sei que o teatro ficou desesperado. Tentando dar conta do entretenimento (que é preenchimento, que é distração da vida). O teatro não é distração da vida! Ele é o oposto disso! Ele te joga a vida na cara e te diz que existem outras  formas menos medíocres de existir!


8 ) No novo espetáculo “Terra de Ninguém“, foi  reunido um elenco de peso . Como foi  que surgiu esse projeto e  a escolha do elenco?

É um projeto do diretor da encenação, o Roberto Alvim. A escolha do elenco foi feita por ele também! É um parceiro e amigo de longa data! Essa é a quinta peça que fazemos juntos. 


9 ) Harold Pinter era contra a participação da Inglaterra na Guerra do Iraque. Como você vê a o conflito na Palestina?

Esse é  um assunto muito complexo e delicado! Vc viu o que aconteceu com as pessoas nessas eleições, não é? Gente perdendo a cabeça, gente perdendo amigos... Se as pessoas são capazes desse grau de desrespeito raivoso e dessa inflexibilidade polarizante numa eleição presidencial, é muita pretensão querer discutir, entender e até propor soluções num conflito infinitamente mais complexo e antigo do que esse. 

Resumindo, acho que nós brasileiros não temos a menor  noção do que se passa de verdade ali! Somos bombardeados por essa mesma imprensa tendenciosa que cobriu nossas eleições! Não sabemos de nada! Nós não sabemos o que é ter que se agaxar na rua de 5 em 5 minutos com a ameaça de um missil cair sobre sua cidade ou ver seu pai ser morto ou preso diante doa seus olhos! Não não fazemos idéia do que se passa ali. Somos influenciados por uma midia tendenciosa que forma nossas pobres opiniões sobre aquilo!

Mas tenho feito um trabalho de escuta de diferentes visões para tentar destrinchar esse nó! Se conseguir algo próximo disso eu divulgo esse material de alguma forma! 


10 )  O maravilhoso de entrevistar você, é que não se fala apenas com um artista, mas sim, com um homem atuante no seu tempo. Seria uma das funções do artista, antes mesmo de procurar a vaidade da profissão, em minha opinião. Parafraseando a letra de João Pedro em “ Miséria no Japão “ pergunto: Quem resiste faz a raça evoluir  ?

O artista deveria ser como um camarão social, que come as sujeiras do mundo e do homem e devolve em alimento! Ou o pavão, que come as coisas venenosas que nenhum outro bicho come e devolve em beleza!
Isso nada tem a ver com vaidade! É uma função social! Como tantas outras!  


TRECHO DO CURTA METRAGEM  KM - 0 , PROTAGONIZADO POR CACO CIOCLER.




Silvio Tadeu
Colunista de Arte e Cultura


 


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